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Projeto antirracista de Camaçari contribui para a formação de uma nova consciência entre estudantes

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Na Rede Pública Municipal de Ensino de Camaçari os educadores se dedicam à construção do conhecimento e com as formas de transmissão para os estudantes, não apenas na perspectiva didática, mas, sobretudo, na dimensão colaborativa da formação cidadã. Os profissionais buscam no dia a dia desenvolver projetos que incrementem e facilitem a aplicação dos saberes em sala de aula, transformando o conteúdo em vivências e o aprendizado em trajetórias de formação humana.

 

É a partir desse compromisso que nasce o projeto pedagógico antirracista da professora Carla Luiza Santos e Santos Rebouças. A iniciativa, intitulada “Por um arkhé das diversidades culturais, produzindo possibilidades didático-pedagógicas”, foi publicada pela plataforma educacional Nova Escola e recebeu, em 2025, o Selo Educadora & Educador Antirracista – Conectando Saberes Camaçari, de reconhecimento nacional, que fomenta práticas de letramento racial. Neste ano de 2026, o projeto “Das Raízes Africanas Nasce a Força da Humanidade”, também da educadora, foi um dos vencedores da mesma premiação.

O plano de ação, em vigor desde 2025, foi desenvolvido no Centro Educacional Monteiro Lobato, localizado no bairro Camaçari de Dentro, em parceria com a rede Conectando Saberes de Camaçari. O objetivo central é aplicar uma pedagogia antirracista e de valorização da diversidade, fundamentada na Lei Federal n.º 10.639/2003 – que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira  – e nas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

 

A proposta é direcionada aos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental e parte do entendimento de que a cultura é histórica e diversa, e que pensar cultura é pensar nas formas de interpretar o mundo, de ver, sentir e agir no cotidiano da escola. Para a professora Carla Luiza, a diferença não é obstáculo, mas oportunidade.

 

“Desde que comecei a lecionar, percebi que as crianças não nascem racistas, elas se tornam. Infelizmente, vivemos em uma sociedade preconceituosa e presenciar situações assim, em sala de aula, sempre me preocupou. Por isso, pensei em desenvolver o projeto para contribuir no combate a qualquer tipo de preconceito, no empoderamento de identidade e na elevação da autoestima, e atestar os resultados positivos é fantástico”, ressaltou a educadora.

 

As linguagens, tradições, culinária, religião e costumes, identidade e pertencimento são aspectos trabalhados de forma interdisciplinar, crítica e afetiva, com material desenvolvido em sala de aula com as crianças, através de jogos, literatura, vivências, brincadeiras, produções textuais, manuais e artísticas, além de oficinas e recursos audiovisuais.

 

“Através do conteúdo associado às ferramentas, eles entendem quem são, aprendem sobre resistência, ancestralidade e a respeito das nossas raízes africanas. Elaboramos uma cartilha que não ficou só dentro da escola, foi apresentada para a comunidade e o impacto foi imenso, maravilhoso! As crianças acabam, também, se tornando agentes multiplicadores desses conhecimentos. Tudo isso é possível de acontecer, graças ao apoio e suporte da gestão municipal, por meio da Secretaria de Educação de Camaçari e colaboração dos colegas”, completou a professora.

 

Consciente do próprio potencial, o pequeno Enzo Santana Filho, 10, aluno do 4º ano A e morador do bairro Lama Preta, disse gostar do que tem aprendido. “O projeto influenciou a gente a ser independente, que podemos realizar os nossos sonhos, mesmo que outras pessoas julguem. Os meus antepassados lutaram para estarmos onde estamos e eu não vou parar agora”, revelou o garoto, que pretende ser paleontólogo.

 

Empoderada, Maria Eduarda Barbosa, 9 anos, contou sobre o que mudou ao participar da iniciativa. “Eu achava que era branca e queria meu cabelo liso. Com o projeto da pró Carla eu entendi que sou uma menina parda e que meu cabelo é lindo, é minha coroa, e um monte de gente fala que gostaria de ter o cabelo como o meu. Aprendi que racismo é crime e, quando eu crescer, quero ser escritora para escrever sobre esse assunto e ajudar as pessoas a combater o racismo”, explicou.

 

O projeto foi estruturado para acontecer de forma contínua ao longo do ano letivo. Diversas obras   literárias nortearam o projeto e referências culturais de destaque foram usadas para debater representatividade e pertencimento dentro e fora da sala de aula, envolvendo não só a comunidade escolar, mas os familiares.

 

“Fico muito feliz pela oportunidade que minha filha está tendo e, sobretudo, por estar acontecendo dentro de uma escola pública. Aprendendo sobre respeito, cultura e, principalmente, em ser uma cidadã antirracista. Esse projeto é muito importante e vê-la se desenvolvendo, entendendo o que é ensinado, passando adiante esse conhecimento no dia a dia, reforçando o que é orientado em casa, é muito gratificante. Nem sempre o ensino foi assim e aqui, em Camaçari, podemos participar de um processo como esse”, declarou Ana Cláudia Triqueiros, 32, paulista, residente na cidade há quatro anos, e mãe da estudante Maria Eduarda Triqueiros, 11 anos.

 

O PROJETO

 

A prática pedagógica desenvolvida pela professora Carla Luiza gerou um forte engajamento da comunidade escolar e promoveu a conscientização direta contra o racismo estrutural na infância, fortalecendo a autoestima dos estudantes em um contexto afetuoso, que complementam as práticas curriculares.

 

Para executar as etapas durante o ano letivo, o projeto pedagógico antirracista foi dividido em três eixos. São eles: Identidade e Literatura, Ancestralidade e Protagonismo e Cultura e Inclusão. 

 

No eixo Identidade e Literatura, a abordagem traz obras e figuras como a personagem Tayó, além de autores e personalidades como Lázaro Ramos e Ana Maria Machado. O intuito é que a criança negra se veja nos livros e nas histórias contadas.

 

Já no eixo Ancestralidade e Protagonismo, os estudos são voltados para inventores negros, a história das mulheres extraordinárias e a simbologia do Baobá. Há ainda a confecção de bonecas Abayomi, resgatando memórias e ancestralidade.

 

O eixo Cultura e Inclusão conecta as raízes nordestinas e africanas que formam Camaçari, culminando em um formato inclusivo com o “Natal da Diversidade”. A metodologia envolve Língua Portuguesa, História, Geografia, Artes, com oficinas, vídeos, visitas e brincadeiras.

Redação

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