Em meio ao que vem sendo revelado no caso envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, uma figura me chama particularmente a atenção: Cármen Lúcia. A mulher. A única mulher na atual composição do Supremo Tribunal Federal. Nas reportagens que li sobre esses episódios, não encontrei seu nome associado às relações descritas. Isso me traz satisfação, embora eu saiba que a ausência de um nome nas notícias não permite conhecer todos os fatos nem explicar as escolhas de uma pessoa. As revelações recentes tornam essa reflexão ainda mais urgente.
Reportagem publicada pelo UOL em 13 de outubro descreve mensagens atribuídas a Vorcaro e a seus intermediários sobre contratação de garotas de programa e recrutamento de mulheres estrangeiras, inclusive refugiadas. Nos diálogos divulgados, mulheres são chamadas de “escravas”, “kengas” e, no caso das mais jovens, de “creche”. A Polícia Federal investiga possíveis ilegalidades. Vorcaro, por sua vez, negou exploração ou desrespeito às mulheres e contestou a autoria, a autenticidade e o contexto das conversas. (noticias.uol.com.br)
O conteúdo divulgado me causa indignação. Vejo nessa linguagem uma forma desrespeitosa, misógina e desumana de tratar mulheres: como corpos disponíveis, classificados e negociados segundo a conveniência de homens com dinheiro e influência.
Toda mulher tem direito à dignidade, inclusive aquela que trabalha com sexo. Sua atividade não autoriza ninguém a humilhá-la, explorá-la ou tratá-la como propriedade. E a condição de refugiada deveria despertar proteção e solidariedade, jamais ser vista como oportunidade de aproveitamento de sua vulnerabilidade.
As responsabilidades precisam ser apuradas. Minha indignação com a linguagem divulgada acompanha essa exigência de investigação, sem substituir suas conclusões. É nesse contexto que volto meu olhar para Cármen Lúcia.
Ela chegou ao Supremo com uma trajetória construída no Direito: procuradora do Estado de Minas Gerais, procuradora-geral do Estado, professora titular de Direito Constitucional e mestre nessa área. Uma mulher reconhecida por sua atuação jurídica e intelectual.
Ao longo dos anos, vejo nela força, firmeza e um profundo senso de justiça. Posso discordar de algum de seus votos, como é natural em relação a qualquer magistrado, e ainda reconhecer uma mulher de posicionamentos seguros, consciente da responsabilidade do cargo que ocupa.
Creio que sua história, seus valores e sua independência orientem também as relações que escolhe cultivar. Essa é uma percepção pessoal, não uma conclusão sobre fatos que desconheço. Mas existe outra reflexão, muito mais incômoda: será que o fato de ser mulher também a manteve distante de determinados círculos?
Os grandes espaços de poder no Brasil ainda carregam estruturas predominantemente masculinas. Neles, redes de amizade, intimidade, negócios e influência podem se formar em ambientes nos quais mulheres não são admitidas como iguais.
Talvez exista aí uma ironia amarga: o machismo que dificulta o acesso das mulheres aos círculos de influência pode, em determinadas circunstâncias, também afastá-las de ambientes marcados pela degradação de outras mulheres. Mas exclusão não é proteção. E ser mulher não torna ninguém automaticamente íntegra, assim como ser homem não torna ninguém culpado.
O que devemos exigir de qualquer pessoa que exerça o poder tem responsabilidade pelas próprias escolhas: quais portas atravessa, quais mesas frequenta, quais relações cultiva e quais princípios se recusa a negociar. Por isso, essas revelações reforçam em mim a urgência de nós, mulheres, ocuparmos os espaços de poder.
Mas ocupar de verdade.
Com autoridade para decidir, independência para agir e liberdade para discordar. Com condições de enfrentar a misoginia, inclusive quando ela se apresenta entre pessoas influentes, cercada de dinheiro e protegida pelo silêncio. Não queremos mulheres em cadeiras importantes apenas para compor fotografias ou conferir aparência de diversidade às instituições.
Queremos mulheres com comando, voz e participação efetiva nas decisões. Mulheres cuja presença ajude a transformar estruturas que ainda toleram a humilhação e o uso de outras mulheres. Porque representatividade sem poder real é apenas cenário. Não queremos apenas um lugar à mesa. Queremos voz para participar das decisões tomadas ao redor dela e força para nos levantarmos quando aquilo que estiver sendo servido contrariar nossos princípios. A dignidade das mulheres precisa valer em todos os lugares, sobretudo naqueles em que o poder se acostumou a agir sem ser questionado.


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